segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A hora da escolha



Quero fazer um apelo à TriFil e às demais fabricantes de meias-calças: por favor, deem nomes mais fáceis de interpretar aos seus produtos, queridos. Já não basta o drama de eu ter de levar a meia extra-grande e aceitar que tô ali, na última fronteira, gente? Suplico isso por que eu nunca sei que tom devo levar. Nunca sei qual está de acordo com o meu tom de pele. É mate, é castor, é mel, é tabaco, é natural e é bem possível que eu tenha testado todas essas e outras centenas, porém, sem sucesso. Eu até faço aquele teste da mão, mas como vocês devem imaginar, só coleciono fracassos. Por falar em natural, esse natural aí de vocês é natural pra quem? Pra preto é que não é, né? É tipo band-aid, que não existe pra nós, que temos uma demão generosa de melanina. 

Cansei de levar uma dessas meias na doce ilusão de que, ao se misturar com a minha pele, ela teria o tom adequado, mas não. Elas são sempre muito mais claras e eu sempre fico com um quê de palhaço. Agora vocês têm uma tal de "natural claro" que, obviamente, não foi feita pra mim. Quando vocês lançarem a "natural escuro" ou coisa que valha, me avisem, ok? Estarei sentadinha na pracinha mais próxima, segurando uma rosa vermelha e vestindo uma meia-arrastão, que é pra não ter erro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Meio parda, meio indígena


Chega a ser comovente a tentativa desesperada de uns vendedores que falam de um tudo pra convencer alguém a comprar alguma coisa, né? Eu acabei de ouvir isso aqui, ó: "menina, ficou super em você! Combinou com a sua pele! Caiu superbem em você, que é meio parda, meio indígena". Gargalhei e ele, derrotado e extremamente franco, disse: "ah, sei lá, né? Não sabia o que dizer". Rimos. Não comprei.
Meio parda, meio indígena. Meio Jeremias, meio Papa Capim. Meio "As filhas do vento", meio "Tainá - uma aventura na Amazônia".



terça-feira, 18 de agosto de 2015

Direto para a escola


Dois garotinhos uniformizados e com mochilas azuis apareceram sozinhos, hoje cedo, na fila do BRT. Não deviam ter mais do que 9 anos. Logo ganharam a simpatia dos seguranças e dos passageiros, que riam das gracinhas que eles diziam com uma animação matinal que eu francamente invejo.

Eles eram fofos, mesmo. Eram engraçados e meio malandros no jeito de falar também. Ouviram de alguém da fila aquela piadoca que todo mundo ouviu pelo menos uma vez na vida: “é pra ir pra escola pra estudar, não só pra merendar, hein?”. Como toda criança que ouve isso, os dois sorriram sem terem achado graça alguma.

Eles tiveram prioridade no embarque, ninguém reclamou e logo pediram que o ar fosse ligado. Pedido feito, pedido atendido, ainda que não por causa deles. Os dois fizeram uma viagem curta; foram de Madureira até a Praça Seca. Nem 10 minutos. Quando levantaram para descer, uma passageira disse com a autoridade de uma mãe: “é pra ir direto pra escola, não é pra ficar de bobeira na rua, tá?”. Um deles ficou quieto, mas o outro respondeu: “a gente tá indo pra escola, tia! A gente tá atrasado.”. E a mulher completou: “ah, bom! Tem que estudar mesmo pra não ter de andar de BRT pro resto da vida”. Aaaah… Os meninos desceram e uma lágrima quase correu no canto do meu olho.

Agora veja você… Desde quando o BRT é uma exclusividade dos que não puderam estudar? Indignada, quase esfreguei o meu diploma e os meus boletins escolares na cara dela. Só não fiz isso porque não costumo andar com o meu diploma e os meus boletins escolares por aí. Mas foi por pouco.

domingo, 9 de agosto de 2015

Compra de mês


Todos os dias, Ana faz o mesmo percurso rumo à faculdade: sai cedinho de casa, passa pela banca de jornal, cumprimenta Seu Alfredo, o jornaleiro, caminha cerca de quinze minutos até o ponto de ônibus mais próximo e espera outros quinze até que o coletivo passe e a leve para a aula. Todos os dias são assim. Todos, exceto aquele dia. Exceto aquela quinta-feira.

Além de ter dormido mais do que a cama, levantado às pressas e engolido o café para ver se despertava de uma vez, Ana ainda perdeu o ônibus que acabou passando pelo ponto no exato minuto em que chegou, já sem fôlego, a ele. Não teve escolha. Ela teve de esperar mais alguns minutos pela condução seguinte.

O ônibus apareceu no horizonte, Ana fez sinal e, exausta, acomodou-se no único assento vazio que restava. Sentiu até um certo prazer de saber que, apesar de o dia ter começado mais corrido que o de costume, poderia aproveitar aquela meia hora de viagem tirando um cochilo.

No ponto seguinte, entraram seis passageiros: um casal, três adolescentes barulhentos e a Dona Emília, uma dona de casa de 70 e poucos anos que, naquela viagem, foi a colega de assento de Ana.

Um carro quase bateu na traseira do veículo, freou bruscamente, seguiu costurando o trânsito e todos os passageiros se assustaram. Ana resolveu, então, puxar papo com a sua colega de assento. Um papo tão relevante quanto aqueles típicos de elevador e de sala de espera de consultório médico, que a gente puxa por puxar, sem pensar muito nas consequências, e se arrepende no mesmo segundo.

Para ler a continuação do conto, clique aqui.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Conhecido incógnito


É desesperador quando alguém te chama na rua, sorri pra você e você, embora saiba que aquele rosto lhe é familiar, não tem a mais vaga ideia de onde o conhece, né? Quando isso acontece comigo, recorro a algumas perguntas na esperança de que o conhecido incógnito diga o nome de alguém ou de algum lugar e eu, pá (!), mate a charada. Eis as perguntas:
Como vai o pessoal lá?
Tem visto o pessoal?
Nem lembro quando nos vimos pela última vez... quando mesmo?
Tem ido lá?
Tá morando onde?

Na última vez, eu escolhi esta última pergunta. A moça fez, por um segundo, uma cara de estranhamento e no segundo seguinte, eu lembrei de quem se tratava. Pena que não cabia fazer essa pergunta a ela... Eu me senti bem ridícula por não ter reconhecido a moça de cara e tô determinada a tomar, diariamente, doses cavalares de Cogumelo do Sol.


domingo, 26 de julho de 2015

Nem aqui nem na China


O Mercadão de Madureira é aquele tipo de lugar em que você entra, não consegue sair e envelhece lá dentro. É meio Caverna do Dragão, meio Saara (o centro comercial), sabe? Antes daquele incêndio de uns 20 anos atrás era muito pior, mas eu continuo me perdendo nos corredores daquele lugar.
Tem de um tudo no Mercadão: artigos para festas, escolares, religiosos, medicinais... Pensa aí numa coisa impossível de achar. Pensou? Tem lá.
Uma vez, eu estava em Madureira e resolvi dar um pulo lá porque estava atrás de não sei o quê. Mentira, sei, sim. Eu ia a uma festa à fantasia e precisava de uma peruca pra montar a minha personagem. Muitos dos comerciantes do Mercadão são orientais, daqueles que têm o hábito de, na nossa frente, se comunicar entre eles e em suas línguas pátria pra que a gente não saiba do que estão falando e do que tanto riem. Não tenho dúvida de que estão sempre me xingando e rindo da minha cara de palhaça perdida ali, naquela selva de brinquedo, isopor, condimento, papel celofane, bibelô e imagem de santo.
Entrei na loja, perguntei se tinha a peruca do jeito que eu queria e fui imediatamente descartada por uma chinesa por que é assim mesmo que eles fazem quando a gente procura por alguma coisa que eles não têm. Saí, dei uma volta, subi escada, desci escada, mirei outra loja do gênero, entrei, procurei pela peruca em todos os cantos, não achei e me dirigi àquela que parecia ser a dona da loja. Era a mesma mulher e eu demorei uns 5 segundos pra me dar conta disso. Ela olhou pra mim com cara de "cê tá de sacanagem, né?" e não se deu o trabalho de me responder. Fiquei invisível. 

Saí e fui achar o que eu buscava em outra loja, também do Mercadão, também de donos orientais monossilábicos, mas fui embora decidida a me matricular num curso de mandarim e, assim que notar que estão rindo da minha cara, encher o peito e dizer: "cês tão falando de mim, né, seus puto?". Tenho certeza de que eles ficarão espantados com a minha sagacidade e entenderão, de uma vez por todas que, enquanto eu viver, não permitirei que eu seja motivo de chacota deles. Nunca mais. Em lugar nenhum. Nem aqui nem na China.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uber x 99Taxi


Hoje à noite, eu vou encontrar uns amigos na zona sul. Não quero ir de metrô, de trem, de bicicleta do Itaú, tampouco de ônibus. Quero que um carro venha me buscar e me ofereça brigadeiros e caipirinhas de frutas da estação como passatempo da minha viagem. Ah, quero toalhas brancas com aroma de Comfort Flores do Campo também. Em troca, prometo amor eterno e ampla divulgação nas redes sociais. Aguardo contato.